20/09/14

"Já vejo com os meus olhos"

Diálogo para mim próprio. Penso em surdina e ouço a minha voz. Por vezes falo em voz alta, parece que inconscientemente o meu outro eu está distante o que me leva a utilizar a voz para que ele me possa ouvir.
Desde que eu o vi, ou desde que realmente me vi, nunca mais fui o mesmo.
O olhar. Aquele traço. Aquelas palavras estranhas escritas no canto superior do espelho. Não quis acreditar que aquele era mesmo eu. Mas era. Melhor, fui.
Fui, porque já não o sou. Impossível ficar indiferente e estagnado com o que era antes de realmente me conseguir ver. Ver com olhos de ver, como dizia o outro, transformou-me. Divaguei por uns dias, recusando-me a ser quem eu vi. Não podia ser aquele. Aquela pessoa não era eu. Os meses passaram-se e nunca mais pensei sobre isso. Continuei a ser como anteriormente pensava que era.
À pouco deu-se outra vez o clique. Voltei a ver-me. De frente ao espelho, entrando dentro do meu olhar, soltei um simples "olá" a mim próprio, que por sua vez me retribuiu de seguida com um "olá, boa noite". O choque deste reencontro fez com que ficássemos ambos em silêncio. Eu sentei-me na sanita, ele sentou-se no bidê. Acendi um cigarro, ele uma cigarrilha com boquilha. À medida que íamos fumando, fomos perdendo a nitidez um do outro. Abro a janela, o fumo vai saindo, volto-me e ele já não se encontra. Olho-me ao espelho e já não me vejo. Vejo-o a ele. Continuo a ser eu mas sem ser eu. Continuo a identificar-me, mas a saber que estou a ser enganado por mim próprio. Deverei assumir esta identidade? Mas qual delas será a real? Aquela imagem imortalizada na minha memória ou esta em que agora me encontro e que apresenta movimento? Conseguirei carregar o fardo de admitir a mim próprio que não sou quem pensava que era? O tempo o dirá. Pego na bengala de madeira e dirijo-me lentamente para o quarto. Descalço os chinelos, deito-me na cama com o pijama já anteriormente vestido e desligo a luz.
O quarto encontra-se em plena escuridão, e os meus olhos absorvem de olhos abertos e penetrantes, toda essa tonalidade. Mentalizo-me. Sento-me na cama, ligo a luz, pego no telefone e marco o número do António.
O telefone toca...toca...toca...toca...ele por fim atende.

- Estou, variações? Já não sou quem era pá...

(...)